14.2.18

Briant Barrett e os Animais nos Açores


Briant Barrett e os Animais nos Açores

Briant Barrett foi um inglês, que visitou os Açores, entre 1812 e 1814, autor de um manuscrito que se encontra na Biblioteca Pública de Ponta Delgada e que terá chegado aos Açores pela mão de Rainer Daehnhardt, historiador e colecionador luso-alemão, que foi proprietário da Livraria Nove Estrelas, em Ponta Delgada.

Alertado pelo Dr. George Hayes, um dos tradutores do manuscrito, por diversas vezes o consultei à procura do que o autor havia escrito sobre o tratamento dado aos animais no período em que esteve de visita aos Açores. Na altura, a pedido de diversas pessoas, não tornei público o resultado das minhas pesquisas, pois estava para breve a publicação de todo o manuscrito pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada, o que não veio a acontecer. Com efeito, foi a editora Letras Lavadas a responsável pela edição, recente, do manuscrito referido com o título “Relato da minha viagem aos Açores 1812-1814”, com uma nota prévia de Manuela Vaz de Medeiros e o prefácio de Susana Serpa Silva.

Sobre o modo como eram tratados os animais, o autor relata as barbaridades que viu nas festas de São João, na ilha Terceira, o que prova que na tradição, felizmente, nem tudo perdura e que há tradições que, por inumanas, deveriam fazer parte do caixote do lixo da história.

Segundo Briant Barret durante os festejos “os principais nobres da ilha exibem grupos de danças, equitação e touradas, ou melhor, atormentam uma quantidade de gado infeliz, utilizando dardos, espetos e cães da mesma raça do nosso bull.dog ingês”.

Mas, não se pense que eram só os bovinos que eram importunados, Briant Barrett relata também outras malvadezes, como quebrar com uma espada vasos de barro que continham no seu interior gatos, coelhos pombas ou galinhas.

Para culminar as atrocidades, Barrett deixa para a posterioridade o seguinte texto: “As proezas de equitação terminavam com a exposição de um infeliz pato, pendurado pelas pernas, atingido, também, com uma espada, em pleno galope.”

Não pelas atrocidades descritas, mas pelo todo, recomenda-se a leitura do livro de Briant Barret, felicitando todos os que tornaram possível a sua edição.

Teófilo Braga
14 de feveriro de 2018

11.2.18

Touradas à corda mais facilitadas

Sempre disseram que nas touradas à corda não havia maus tratos, agora dizem que criam legislação para proteger os animais, entre outros dos aguilhões. A verdade é que a legislação foi criada para facilitar as touradas e dar mais dinheiro a que delas beneficia.

7.2.18

Nova lei que regula a caça nos Açores de costas voltadas para a conservação da natureza e o desenvolvimento do turismo


Nova lei que regula a caça nos Açores de costas voltadas para a conservação da natureza e o desenvolvimento do turismo

Como cidadãos açorianos e também como ambientalistas queremos manifestar o nosso pesar pela aprovação na Assembleia Regional da nova lei que regula o exercício da caça nos Açores. Com ela perdeu-se mais uma oportunidade de colocar a defesa da natureza e o interesse geral de todos os açorianos por cima dos interesses particulares duma minoria elitista de caçadores, pouco representativa do conjunto dos caçadores açorianos, que pretende converter a natureza e o território da região num parque temático para a prática de determinados tipos de caça.

Com a finalidade de apoiar esses interesses, o governo regional, o proponente da nova lei, perdeu-se tecendo toda uma série de argumentos contraditórios e sem sentido. Num primeiro momento, por exemplo, considerou que o coelho-bravo é uma praga que causa danos na agricultura e que o exercício da caça é fundamental para poder controlar as suas populações. Mas depois, noutro momento, considerou que não se pode proibir a caça das aves nativas açorianas, aquelas que precisam de protecção, porque isso aumentaria a pressão cinegética sobre as outras espécies, isto é, sobre os tais coelhos que são uma praga.

Mas ainda, noutro momento, considerou que não há estudos que demonstrem que os coelhos sejam uma praga. E isto apesar de esta espécie estar incluída entre as 100 piores espécies exóticas invasoras a nível mundial e também a nível da Macaronésia, e apesar dos estudos, realizados por exemplo nas Canárias, que demonstram o seu forte impacto na flora nativa das ilhas oceânicas.

Durante o debate da lei na Assembleia Regional infelizmente não foi retirada nenhuma ave nativa da lista de espécies cinegéticas, tal como seria lógico fazer a partir dos diferentes argumentos científicos apresentados pelas associações conservacionistas. Pior ainda, foi acrescentada uma nova espécie à lista, a narceja-americana, o que parece claramente ilegal considerando que contraria o Decreto Legislativo Regional (15/2012) da Conservação da Natureza e da Protecção da Biodiversidade.

Desta forma, não foram retiradas da lista espécies como a narceja, que possui apenas cerca de 300-400 casais reprodutores nos Açores, mas por exemplo apenas uma dezena de casais na ilha de São Miguel, muitíssimos menos casais que por exemplo o priôlo. Não foram retiradas da lista espécies como o pato-real e a marrequinha, espécies migratórias das quais já existiram no passado registos de reprodução na nossa região. E não foram retiradas da lista espécies como as perdizes, espécies exóticas cuja introdução na nossa região também seria ilegal, e certamente disparatada quando se pretende que seja realizada por uma entidade pública como o governo regional.

A nova lei regional continua a permitir o exercício da caça nas zonas húmidas e nas proximidades dos trilhos pedestres, em grave confronto com o desenvolvimento do turismo na nossa região, nomeadamente o de observação de aves. O direito dos proprietários à “não caça” nos seus terrenos fica reduzido à decisão e boa vontade do governo. E também nada é feito para impedir a utilização na caça de espécies exóticas invasoras ou para reduzir os maus-tratos aos animais.

Claro que ainda pior foi a intervenção na Assembleia Regional de outros partidos como PSD e CDS, reclamando a caça de espécies ameaçadas como os pombos-torcazes, o aumento das populações de coelhos ou a introdução de mais espécies exóticas. Também foi bastante negativa a ideia recorrente em todo o debate, sem a mínima base científica, de que os animais selvagens precisam de ser caçados para manter reguladas as suas populações, como se a regulação natural das espécies e dos ecossistemas precisasse das espingardas dos caçadores.

Esperamos que no futuro, com governantes e representantes políticos mais iluminados, o bom senso acabe finalmente por se impor na lei. Esperamos que a conservação da natureza passe a ser finalmente uma realidade e uma prioridade política, honrando o que é de facto um direito e um dever constitucional de todos os cidadãos açorianos.


Assinantes:

Avifauna dos Açores
Amigos dos Açores – Associação Ecológica
Coletivo Açoriano de Ecologia Social (CAES)
Ambiflores – Associação de Defesa do Ambiente da Ilha das Flores
Vegaçores - Associação Vegana dos Açores


Alexandra Manes
Ana Cesário
Ana Nogueira Loura
Ana Sofia Ferreira
Carlos Ricardo
Carmo Barreto
Cristina D’Eça Leal Soares Vieira
Dário Rosa
David M. Santos
Diogo Caetano
Elsa Ferreira
Fabio Jorge da Silva Couto
Gabriela Mota Vieira
George Hayes
Hélder Correia
Helena Melo Medeiros
Jessica Pacheco
João Pacheco
Joël Bried
Jordana Vasconcelos
Jorge Ávila de Lima
José Manuel N. Azevedo
Lúcia Ventura
Luís Estrela
Luís Silva
Luís Viveiros
Maria Adelaide Oliveira
Maria Antónia T. de Fraga
Maria Anunciação Mateus Ventura
Maria Cristina de Sousa Tavares
Maria Helena Câmara
Maria Inês de Vargas
Maria José Aurélio
Maria Miranda Teixeira
Marlene Raposo Dâmaso
Nélia Melo
Paulo Monteiro
Rita P.P. Bernardino
Rui Soares Alcântara
Sérgio Rego
Teófilo Braga
Vera Correia


Comunicado:
http://avifaunadosacores.blogspot.pt/2018/01/nova-lei-que-regula-caca-nos-acores-de.html

1.2.18

Contra a tourada à corda




Cidadãos açorianos contra a continuidade das touradas à corda na Região

Mais de 1.600 pessoas já assinaram a petição “Não mais touradas, com ou sem corda, nem violência contra os animais nos Açores” disponível na plataforma Change.org (https://www.change.org/p/assembleia-regional-dos-a%C3%A7ores-n%C3%A3o-mais-touradas-com-ou-sem-corda-nem-viol%C3%AAncia-contra-os-animais-nos-a%C3%A7ores).

Os assinantes protestam contra a intenção do Governo Regional dos Açores de introduzir novas alterações à legislação que regulamenta a tourada à corda na Região, qualificando esta prática como cruel e retrógrada, sendo que cada vez mais açorianos a repudiam e pretendem o seu fim.

Os peticionários manifestam-se contra a prática da tourada à corda principalmente por três razões: pelo facto de as touradas à corda serem responsáveis pela morte e pelo ferimento frequente de numerosos animais, que são abusados inutilmente para mera diversão humana; pelo facto de as touradas à corda serem a causa de ferimentos e da morte de seres humanos, calculando-se serem responsáveis, em média, por uma pessoa morta e 300 feridas anualmente na Região; e pelo facto de as touradas à corda contribuírem para uma imagem negativa dos Açores junto de cidadãos nacionais e estrangeiros, que se sentem incomodados pelos maus-tratos infligidos aos animais nos Açores, optando por escolher outros destinos turísticos.

Os assinantes consideram que está na hora de introduzir o progresso no âmbito das festividades populares dos Açores e deixar atrás, no seu sepulcro caiado, todas as tradições que envergonham os açorianos como povo.

A petição será entregue proximamente à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, ao Presidente do Governo Regional e a outros responsáveis políticos e governamentais da Região.


Comunicado do
Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA)
01/02/2018

29.1.18

António Gonçalves Correia e a Caça



Notas Zoófilas (131)
António Gonçalves Correia e a Caça

António Gonçalves Correia (1886-1967) foi um anarquista português seguidor das ideias de Tolstói. Coerente com os ideais que defendia, para além de acérrimo defensor dos direitos humanos, foi defensor de todos os animais ditos irracionais.

Foi poeta e ensaísta, tendo colaborado em diversos jornais como “A Batalha”, “A Aurora” ou “O Rebelde”. Para a divulgação do seu pensamento fundou o jornal “A Questão Social” e publicou as obras “Estreia de um crente” e “A felicidade de todos os seres na sociedade futura”.

No opúsculo “Estreia de um crente”, publicado em 1917, em edição de autor, Gonçalves Correia publica uma carta dirigida a um caçador onde de forma pedagógica, embora não escondendo o que pensa, o tenta convencer a deixar de caçar lembrando-lhe que “(…) matar por prazer, como V. faz (…) nada mais é do que procurar impedir o avançar esta vida harmónica e vibrante a que todos têm direito!”.

Na carta, Gonçalves Correia, recomenda ao seu amigo que procure alternativas à caça, do seguinte modo:

“Um homem culto, um espírito superior, um indivíduo que tem à mão, conquistados pelo seu labor constante, material ou intelectual, os elementos precisos, dignos e morais, para a distracção do seu espírito, não pega em uma espingarda miserável para ir matar com diabólico prazer as inocentes avezinhas, cuja utilidade é incontestável, utilidade que de mil maneiras se manifesta. E V., que dispõe de elementos materiais razoáveis, que tem um cérebro normal, que tem um coração que sente, pode muito bem procurar outros prazeres mais dignificantes e mais razoáveis.

O leitor interessado no texto completo poderá recorrer à publicação mencionada ou ao número 276 do jornal A Batalha, de setembro-outubro de 2017, onde para além da carta terá acesso a uma introdução feita por Francisca Bicho.

Teófilo Braga
30 de janeiro de 2018

23.1.18

Nova Lei da Caça para alimentar velhos vícios


Nova Lei da Caça para alimentar velhos vícios

Foi aprovada recentemente uma nova legislação que regulamenta a caça nos Açores que, ao contrário de restringir a atividade que beneficia uma parte cada vez menor dos habitantes dos Açores, pretende dar mais alento a uma elite cada vez mais isolada. Com efeito, é cada vez maior o número de pessoas que condenam uma atividade que se faz, não por necessidade de alimentos, mas apenas para divertimento.

Dos argumentos apresentados para a continuação da matança da vida selvagem o mais usado pelos caçadores que se dizem ambientalistas é o “da manutenção” e o do “controlo da superpopulação” de algumas espécies.

A provar que aquele é um falso argumento aqui está uma parte da lista das espécies cinegéticas que não precisam de ser mortas para viverem: narceja-comum, narceja de Wilson, pato-real, perdiz-vermelha, perdiz-cinzenta e piadeira.

Os sucessivos governos dos Açores, quer do PSD quer do PS, não têm sabido defender o património natural do nosso arquipélago, estando ao serviço do lobby da caça, como prova o facto de criarem espécies em cativeiro, para depois as soltar para serem caçadas, usando dinheiros do orçamento regional que devia estar ao serviço de todos e não de apenas alguns.

Por último, não podíamos de referir a proposta absurda do PSD que queria incluir na lista das espécies cinegéticas o faisão comum. Neste caso, como seria mais uma espécie a ser criada com o nosso dinheiro, o PSD estaria a funcionar como Robin dos Bosques, mas ao contrário, isto é, a roubar aos pobres para dar à elite rica (ou que se faz) cá da terra.

José Oliveira
23 de janeiro de 2018

22.1.18

A Proteção às Aves há quase cem anos


Notas Zoófilas (130)

A Proteção às Aves há quase cem anos

No número 4319 do jornal Açoriano Oriental, publicado no dia 23 de fevereiro de 1918, os leitores daquele matutino puderam ler um interessante, e apesar de tudo ainda atual, texto, da autoria de F. Mira, intitulado “A Proteção às Aves”.

O texto foi publicado com destaque de primeira página, o que mostra a importância que os responsáveis pelo jornal davam a um assunto que hoje seria remetido para uma página interior, portanto sem o relevo que então mereceu.

Nos nossos dias o que conta são os grandes negócios, mesmo que sujos, a porca da política e as desgraças alheias, que infelizmente são os “temas” que fazem vender alguns jornais, uma parte dos quais sobrevivem de subsídios governamentais.

Depois desta introdução, deixamos aos leitores interessados alguns apontamentos deixados por F. Mira.

O autor, depois de citar um naturalista que afirmou que o mundo seria inabitável para o homem dez anos depois do desaparecimento das aves, estanha o facto de, por toda a parte, se destruírem as aves, sob os mais diversos pretextos.

Um dos exemplos apresentados, o primeiro, foi o da coruja que era considerada “um animal nocivo e de mau agouro” e acusada, injustamente, do “crime de beber o azeite das Lâmpadas” e que na verdade são “os melhores caçadores de ratos que se conhecem”.

De acordo com o autor que vimos citando, são alguns insetos os principais inimigos dos agricultores e são precisamente algumas aves os principais aliados daqueles. Como exemplo de aves auxiliares dos agricultores, F. Mira refere que “uma ninhada de carriças consome no ano três milhões de bichos; e o abelharuco, para criar os filhos duma ninhada, mais de 20 000 lagartas”.
Teófilo Braga
23 de janeiro de 2018

Desenho de Geral Le Grand

18.1.18

Daniel de Sá e a Fome de um Duque


Daniel de Sá e a Fome de um Duque

Daniel Augusto Raposo de Sá, natural da Maia, ilha de São Miguel, onde nasceu a 2 de março de 1944, morreu na mesma localidade no dia 27 de maio de 2013, depois de uma vida profissional e uma participação cívica e política dignas de registo.

Foi professor do primeiro ciclo do ensino básico, foi uma presença assídua na comunicação social, sendo colaborador de vários jornais. e foi um escritor de grande mérito, com uma vasta obra publicada.

Politicamente, esteve ligado ao Partido Socialista, tendo desempenhado com dedicação vários cargos. Sobre o assunto, com a modéstia que caracteriza os grandes homens, escreveu: “Meteram-me na política, onde tenho sido de tudo um pouco, menos membro do governo regional, porque, além de outras razões evidentes, de certeza não serviria para isso.”

Sobre a relação entre os homens e os outros animais, no dia 19 de janeiro de 2008, publicou no blogue Aspirina um magnífico texto, intitulado “A Fome de um Duque”, que abaixo se transcreve:

“Se as casas vazias não se queixam, nem os gatos parecem estranhar muito ausências a que não estão acostumados, os cães ficam aparvalhados, andam como órfãos, vagueando à procura dos donos e de comida.

O pastor estava no seu almoço de pão e presunto quando viu o Duque. O animal andava vagarosamente. Parou a uns dez passos à sua frente, ficando a seguir com o olhar os movimentos da mão entre a mesa de pedra e a boca. Chamou-o: “Anda cá, Duque.” Ele chegou-se-lhe sem pressas, que talvez nem pudesse, e ficou com a cabeça quase encostada à sua perna direita, à espera. O pastor partiu metade do pão e do presunto, para lhe dar bocadinho a bocadinho. O cão mastigou cada pequeno naco de presunto de um lado, depois do outro, saboreando a fome. Engolia batendo várias vezes os maxilares, fazendo uns estalidos secos com os dentes, de beiços muito molhados e ligeiramente despegados, como que tomando gosto à saliva.

Duque não tinha genealogia. Era um rafeiro cuja nobreza não ia além do nome, uma ironia. Mas tinha carácter. Seria incapaz de deixar os donos como quem abandona um cão.”

Teófilo Braga
18 de janeiro de 2018

Tourada é tortura não é cultura